Quantos presos queremos ter?
Quando se trata de crimes e penas, é relativamente fácil conhecer o pensamento médio do brasileiro: 1) nosso sentimento de justiça nos leva a desejar sempre a prisão dos réus, como castigo por um mal que cometeram; 2) queremos que o cumprimento da pena ocorra muito longe de nós, de preferência em outra cidade, para que nosso meio não seja contaminado; 3) não nos interessa saber o modo como a pena é cumprida (amiúde, a notícia de más condições carcerárias nos agrada, porque satisfaz nosso desejo de vingança); 4) pelas razões anteriores, não nos interessa cobrar do Estado a construção de presídios ou a criação de condições para que seja mantida a dignidade dos presos.
A ideia do Direito Penal máximo está arraigada entre nós, sem a menor preocupação com as consequências práticas do desejo de condenação. O bordão “a polícia prende, o juiz solta” reflete bem esse sentimento, mas quem assim fala não costuma lembrar que nossos presídios estão todos superlotados e simplesmente explodiriam se fossem cumpridos todos os mandados de prisão expedidos.
Não percebe a sociedade que a questão vai para muito além do desrespeito aos direitos humanos: ao manter os presos em condições subumanas e submetidos ao crime organizado que comanda o interior das cadeias, nosso sistema contribui para que, ao final da pena, retornem ao convívio social prontos para cometerem mais crimes, provavelmente em intensidade maior do que aqueles que ensejaram a condenação anterior.
Precisamos refletir bem quando discutimos a legislação penal e a que trata do cumprimento das penas. Se queremos mais presos, precisamos ter claro que há um preço para isso. Ao avaliar o custo de construção de uma das penitenciárias anunciadas pelo Governo do Estado, a de Arroio dos Ratos, insuficiente para atacar o problema de superlotação do Presídio Central, podemos constatar que a criação de cada vaga para preso, sem considerar todo o custo posterior de manutenção, sairá pelo preço de R$ 36 mil.
Este cálculo não pode deixar de ser feito. O Brasil é hoje o terceiro país do mundo em população carcerária, perdendo apenas para os Estados Unidos e a China. Somente em nosso Estado, a população carcerária passou de 12 mil para 30 mil nos últimos quinze anos.
Não podemos nunca esquecer que isso tem um custo; são valores que deixam de ir para a educação, saúde e até para a segurança. É uma escolha que fazemos. Mas, uma vez feita a escolha, nossa responsabilidade e a dos nossos governantes é assegurar que haja vagas suficientes e dignas para o cumprimento da pena.
É para discutir essas questões que as entidades que compõem o Fórum da Questão Penitenciária realizam amanhã (2/8), no auditório do Presídio Central, o seminário O Presídio Central e a realidade prisional: quantos presos queremos ter?, no qual discutirão com as autoridades, com estudiosos da matéria e com os próprios presos as soluções para esse grave problema.
Pio Giovani Dresch, Juiz de Direito no Rio Grande do Sul
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Se não temos realmente cadeia para tanto infrator… é porque temos muita coisa errada na sociedade. Poderia até acusar logo de cara o capitalismo, desigualdade- claro, isso não é motivo suficiente para matar . Mas, desta vez, também, ponho a culpa nas “escolas de crimes” que temos na periferia, sim, moro em uma.
O “bandido velho”, beneficiado na juventude pelas lei de proteção ao menor, ensina que “de menor não vai preso” para a nova leva e inicia um novo ciclo de criminalidade. Teorizo até que isso ocorra em um prazo de 10 anos para reiniciar. Simples: Alguns morrem, outros se mudam e , finalmente, alguns viram “bandido velho”. Sim, tudo de acordo com os direitos humanos.
Não preciso me alongar muito, especialmente para um juiz, dos motivos que levam à criminalidade. Temos os de todo o tipo , dos mais fúteis até os de primeira necessidade.
Gosto da ideia dos direitos humanos. Até um jurista usou isso de “cadeia não educa” para tirar o máximo da possível cadeia. Um bom tempo que não venho por aqui… até comentei sobre isso.
E ainda tenho um exemplo, no caso de minha mãe que foi um dia desses assaltada. Foi no nosso bairro , ao chegar na delegacia, após o segunda o ocorrência do mesmo tipo , alguém lá disso para ela esquecer e voltar para casa. Pois bem, acho que isso parece muito com esses movimentos de “liberta que não resolve”. Isso me soa como: Cidadão, não vamos prender mais, volte para casa, se vira. A sociedade pena na mão dos bandidos e mandam soltar , opa, olha só a frase que juiz não gosta de ouvir… “polícia prende…”, mas nesse caso de minha mãe, nem chegou ao juiz. Muito interessante. Mas , como dizem, isso não é apenas um caso , não é uma realidade geral, só foi um caso novamente…
Ainda me assusto ao ver assassinos livres por ai . Acredito que outros também se assustam. Isso significa um sistema falido. Por isso não sei dizer se acreditar na justiça completamente nos garante uma caminho seguro.
Por fim, a sociedade precisa das suas escolas, sim , e dos seus presídios (mesmo que sejam caro). Essa realidade só mudará se mudar nosso sistema capitalista, mas duvido que isto corra tão cedo, justamente pelo fator do capitalismo ser moldável – porém as desigualdades continuam…
Tomara, mais tomara mesmo que educação e segurança nos garanta um pouco de melhora para o futuro. Não estou tão confiante, só olhar os resultados do Ideb de agora(…) E sobre a polícia e o judiciário… destro da cadeia não educa e fora dela também. Só tem um porém, no primeiro caso há punição, no segundo, não. Vamos ver se esse “Fórum Questão penitenciária” resultará em algo positivo.